07/07/2017

És um fracasso

Esta é a história que devo deixar: és um fracasso.

Eu sinto-me uma falhada porque nunca tive um trabalho a sério. Eu digo isso para mim mesma. E eu digo isso porque eu defino "trabalho a sério" como algo estável, que dura por mais de alguns meses. E eu nunca tive um que durou mais de três.

Mas eu nem gosto de "trabalhos a sério" nem me vejo a trabalhar das 9 às 5.

Eu me sinto como uma falhada porque sinto que não posso dizer: sou x. Embora eu possa: eu sou uma poetisa. Eu sou uma escritora, eu sou mãe.

Mas parece que estou a mentir. Posso me considerar uma escritora se eu não tiver publicado nenhum livro? Ou se não pagar contas? Escrever deveria ser suficiente para me chamar de escritora.

Eu sou uma escritora, eu sou suficiente. E eu sou bem sucedida.

Agora, como posso deixar esta história? Como posso me sentir bem sucedida? Como posso dizer que sou uma escritora com confiança e certeza?

O meu coração está a palpitar e eu sinto-me triste. Esta história está enraizada nos meus ossos. Anos e anos ouvindo, eu sou inútil.

Como posso ser inútil se eu tenho um marido que me ama? E pede o meu apoio? Como eu posso ser inútil se o meu bebé pede o meu abraço e atenção? Como posso ser inútil se os meus amigos me dizem que sentem a minha falta?

Como eu posso ser inútil se a minha poesia toca almas. E minha escrita é considerada bonita?

A arte é a linguagem dos deuses. Eles falam através de mim. Eu sou a sua vasilha.

Eu sou mais do que útil. Eu sou necessária, eu sou essencial.

No entanto, eu ainda me sinto uma falhada sempre que faço algo errado. Ou sempre que alguém não concorda comigo.

Este julgamento do errado e do certo é ilusão. Não há certo. Não há errado. Há apenas diferente. Seria o mesmo que dizer que uma árvore está errada e uma flor está certa. Que uma abelha está certa e uma estrela do mar está errada.

Cada um tem a sua própria realidade, e cada um faz o melhor para se sentir bem.

Às vezes, magoamos as pessoas. Talvez isso não esteja bem, mas é inevitável. As pessoas têm expectativas e não podemos encontrá-las todas. Ou seríamos um metamorfo, mas sem identidade.

Então sim. É bom falhar e magoar e sentir-se magoado. Isso não significa que eu seja um fracasso. Significa que eu sou humana e que estou a crescer.

Assim, se eu estiver a crescer, estou a ir bem.

Mesmo que todas as minhas expectativas não sejam cumpridas. Elas nunca serão. Nunca poderão ser.

Enquanto eu der um passo após o outro. Enquanto eu souber onde quero estar. Eu vou chegar lá. Ou nalgum lugar muito parecido.

beijinhos e tem um resto de dia mágico,

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nícia cruz


simple living doesn't seem simple? welcome to the messy circle!

06/07/2017

Expõe-te

Expõe-te. Expõe-te. Expõe-te. É só o que te posso dizer. Posso e tenho de te chamar a atenção para que te exponhas, para que mostres ao que vens, para que ponhas o coração em cima da mesa, e que o faças de alma aberta. Quem não entender, não entendeu. Mas não é por isso que vais deixar de ser quem és e de mostrar isso ao mundo.

O mundo só existe para que tu te exponhas sem teres medo de ser rejeitado. Sem teres medo de ser ridicularizado. Quantas coisas deixas de fazer com medo de te expores? Quantas experiências não viveste com medo de errar? O medo de errar faz com que a pessoa não se exponha. E quanto menos ela se expõe, mais se vai afundando num poço de conformismo e mesmice.

Vai chegar um dia em que, de tanto se esconder, dos outros e de si própria, acorda e já nem sabe quem é. Não sabe quem foi. E não tem ideia do que virá a ser. A vida é feita de experiências. Sempre que rejeitares alguma com medo de te expores, com medo de errares e seres julgado por isso, a cada vez que te demitires de ti próprio em nome da não exposição e, consequentemente, da tentativa de não ser julgado, estarás a retirar experiências à tua alma, e ao retirares experiências também retiras aprendizado e sabedoria.

Lembra-te sempre. O que está em causa não é o erro. A questão não é parares de errar. O mundo é dual e imperfeito, tu és dual e imperfeito e, por conseguinte, o mais provável é que continues a errar. Expondo-te ou não. O que está em causa é como reages ao erro, o que aprendes com ele e o quanto evoluis à conta de o teres cometido. É outra lógica, eu sei, mas é assim. 
Alexandra Solnado